sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Um fragmento do Livro: Tomorrow's Children

Nutrindo a Humanidade das Crianças

No centro de toda criança há um humano intacto. As crianças têm uma enorme capacidade de amor, alegria, criatividade e cuidado. Crianças têm uma curiosidade voraz, uma sede de entendimento e significados. Crianças também têm um senso inato de justiça e injustiça. Acima de tudo, crianças anseiam por amor e aceitação e, dada meia chance, são capazes de dá-los em abundância em retorno.
No mundo de hoje, de fluxo tecnológico, econômico e social à velocidade da luz, o desenvolvimento dessas capacidades é mais crucial que nunca. As crianças precisam entender e apreciar nosso habitat natural, nossa Mãe Terra. Elas precisam desenvolver sua capacidade inata de amor e amizade, de se importar e tomar conta, de criatividade, de sensibilidade para suas próprias necessidades reais e as de outros.
Numa época em que as mídias em massa são as primeiras professoras das crianças sobre o mundo maior, em que as crianças nos Estados Unidos passam mais tempo vendo televisão do que em qualquer outra atividade, as crianças também precisam entender que muito do que vêem em programas de TV, filmes e videogames é falso. Elas precisam entender que violência apenas gera violência e não resolve nada, que obter bens materiais, mesmo sendo necessário para viver, não é um fim que valha a pena por si só, não importando quantas mensagens comerciais digam o contrário. Elas precisam saber que sofrer é real, que machucar as pessoas tem conseqüências terríveis e freqüentemente por toda a vida, não importam quantos desenhos e videogames façam lesões corporais e brutalidade parecerem normais, excitantes, ou mesmo engraçadas. Elas precisam aprender a distinguir entre estar estarem muito animados e sentir alegria real, entre diversão frenética e prazer real, entre questionamento saudável e indiferença ou cinismo.
Se as crianças de hoje devem encontrar fé com base na realidade, elas precisam de uma nova visão da natureza humana e de nosso lugar no drama da vida revelado nesta Terra. Se elas devem reter sua humanidade essencial, precisam se segurar firme em seus sonhos, em vez de se entregar ao cinismo e egoísmo que hoje em dia são considerados “legais”. Elas precisam de tudo isso para elas mesmas, mas também precisam para seus filhos, para que não se tornem outra geração X, uma geração lutando nesta época incerta para encontrar identidade e propósito, e tudo muito freqüentemente perdido.
Um dos maiores e mais urgentes desafios à frente das crianças de hoje relaciona-se com como eles criarão e educarão as crianças de amanhã. Aí está a verdadeira esperança para o nosso mundo.
Eu acredito ardentemente que se dermos a um número substancial de crianças de hoje a criação e educação que permitam que vivam e trabalhem nas maneiras igualitárias, não violentas, sem distinção de sexo, ambientalmente conscientes, cuidadosas e criativas que caracterizam a parceria em vez das relações dominadoras, elas serão capazes de fazer mudanças suficientes nas crenças e instituições para suportar este meio de se relacionar em todas as esferas da vida. Elas também serão capazes de dar a seus filhos a criação e educação que fazem a diferença entre perceber ou tolher nossos grandes potenciais humanos.
Cuidados e educação no início da infância são críticos, como os psicólogos sabem há tempo. Mas agora esta informação vem a nós com força de relâmpago pela neurociência. Quando um bebê nasce, o cérebro continua a se desenvolver e crescer. No processo, produz trilhões de sinapses, ou conexões entre neurônios. Mas então o cérebro fortalece essas conexões ou sinapses que são usadas, e elimina aquelas que são raramente ou nunca usadas. Sabemos agora que os padrões emocionais e cognitivos estabelecidos durante este processo são radicalmente diferentes dependendo de quanto o ambiente humano e físico da criança é apoiador e cuidadoso ou restritivo e abusivo. Este ambiente determina amplamente fatores críticos, como se somos ou não aventureiros e criativos, se podemos trabalhar com colegas ou somente receber ordens de superiores, e se somos ou não capazes de resolver conflitos sem violência – fatores de importância chave para confrontarmos os desafios da vida, bem como para a economia de informação pós-industrial.
O tipo de cuidado – material, emocional e mental – que a criança recebe, particularmente durante os primeiros três anos de vida, abrirão caminhos neurais que determinarão grandemente tanto nossas capacidades mentais quanto nosso repertório emocional habitual. Cuidados infantis positivos que se baseiam substancialmente em elogios, toques amorosos, afeição e abstenção de violência ou ameaças liberam as substâncias químicas dopamina e serotonina em áreas particulares do cérebro, promovendo estabilidade emocional e saúde mental. (Uma excelente fonte para pais e professores é o filme de Rob Reiner I Am Your Child: The First Years Last Forever – “Eu Sou Seu Filho: Os Primeiros Anos Duram Para Sempre”)
Em contraste, se as crianças são sujeitas a um tratamento negativo, sem cuidados, baseado em medo, vergonha e ameaças ou outras experiências adversas como violência ou abuso sexual, elas desenvolvem respostas apropriadas a esse tipo de ambiente dominador. Elas se tornam tiranas, abusivas e agressivas ou reservadas e cronicamente depressivas, defensivas, hiper-vigilantes e apáticas à sua própria dor bem como a de outros. Freqüentemente essas crianças não têm a capacidade de controle dos impulsos agressivos e de planejamento a longo prazo. Neurologistas descobriram que regiões do córtex cerebral e seu sistema límbico (responsável por emoções, incluindo o apego) são de 20 a 30 por cento menores em crianças que sofreram abuso do que em crianças normais, e que muitas dessas crianças expostas a estresse crônico e imprevisível sofrem déficits em sua capacidade de aprender.
Em resumo, uma criação atenciosa e cuidadosa tem influência direta não apenas no desenvolvimento emocional da criança, mas também no seu desenvolvimento mental, na sua capacidade de aprender tanto na escola quanto durante a sua vida.
A maioria dos pais ama seus filhos. Mas o que faz a diferença é a expressão desse amor através de toques amorosos, abraços, conversas, sorrisos, canto e da resposta carinhosa às necessidades e choros da criança proporcionando conforto, comida, calor e um senso de segurança e autovalorização. Este tipo de cuidado pode ser aprendido, como pode um entendimento dos estágios do desenvolvimento infantil, do que bebês e crianças são capazes ou incapazes de compreender e fazer, e do mal às vezes feito às crianças através da criação “tradicional” baseada em punição.
Daí vem a importância pivotal de ensinar a criação de crianças com parceria, baseada em elogios, toques amorosos, recompensas e sem ameaças. Para resultados otimizados, além de aulas de criação para os adultos, o ensino deste tipo de criação e cuidado deve começar cedo nas nossas escolas, como seria num currículo de parceria. Isto assegurará que as pessoas aprendam sobre isso enquanto ainda são jovens e mais receptivas.
Mas é toda a educação, não somente a educação de crianças pequenas e educação para criação, que deve ser reexaminada e reemoldurada para dar às crianças, adolescentes e, mais tarde, adultos a saúde mental e emocional para viver boas vidas e criar uma boa sociedade. Se mudarmos nosso sistema educacional hoje, ajudaremos as crianças do futuro a florescer. Se prepararmos as crianças de hoje para enfrentarem os desafios sem precedentes que encararão, se os ajudarmos a começar a construir as fundações para uma parceria em vez de um mundo dominador, então as crianças de amanhã terão o potencial para criar uma nova era de evolução humana.
EISLER, Riane. Tomorrow's Children: A Blueprint for Partnership Education for the 21st Century. Cambridge: Westview Press Pages, 2000, 362p. ISBN: 0-8133-9040-0

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